Imagem: O viajante sobre o mar de névoas de Caspar Friedrich
Como alguém que ama tanto ler, prestar atenção nas palavras tem dificuldade em escrever? Na minha cabeça faço roteiros quase todo santo dia. Daqueles filmes em espanhol ou francês. Mais lentos, em que as cenas vão sendo compostas aos poucos e o espectador vai entendendo a linguagem emocional de cada personagem. Secretárias entrando em seu trabalho repetitivo e entediante tomam uma dimensão maior do que se a víssemos numa sala de espera. Bom, aqui estou eu, escutando ao fundo meu companheiro falando ao telefone. Assim tem sido por quase cinco meses, sempre foi, mas nesses últimos tempos as palavras soam mais fortes, ele tem estado mais sensível e eu vejo o quanto cada telefonema envolto em tom amigável o faz bem. Como se ele saísse da concha tecnológica que todos fomos obrigados a entrar. Este outro mundo, virtual, não sei se a palavra se origina ou tem alguma relação com virtude, mas sei que é um mundo não tão admirável que está sendo fortemente arquitetado e construído há mais de vinte anos. Como se todos os engenheiros se concentrassem na programação de edifícios e pistas tecnológicas, mas afinal o que quer dizer a palavra tecnológica que hoje em dia se sobrepõe a todas as outras como se somente nela coubessem as virtudes do novo mundo? Não sei e tampouco irei ao doutor dicionário eletrônico para procurá-la. Quero que corram soltos os meus dedos novamente, na onda das palavras, dessas letras que são o que de mais precioso um ser humano pode ter para encontrar o seu espaço no mundo. Sim, o alfabeto, este pequeno conjunto de letras que formam e organizam tantas outras palavras e nos remetem a significados que a mente pode alcançar sem um quê de ligação eletrônica. E hoje a coisa está tão estranha que só de mencionar qualquer esboço de pensamento sobre os altos níveis de toxicidade virtual, já provocam reações curtas e solenes como se você, pobre ser analógico, desprovido de dotes de desejos e sapiências virtuais, fosse ficar encaramujado num canto, encismesmado pela própria ignorância da evolução des- humana. Tudo bem, continuarei na minha analogia das coisas banais pois são elas as palpáveis, todas as outras me conduzem a uma fugacidade que não me traz vínculos. Receber da vizinha uma bouquet de flores lindas da família das bromélias e colocá-las em um jarro não se faz com nenhuma aplicativo e é destas coisas que vos falo. Então, ao tomar o café da manhã, presto atenção no bolo que fiz ontem, um bolo criado logo no começo desta quarentena infindável em que o que há são máscaras explosivas desumanizando um mundo sorridente e falante, noutras vezes, um estado de rostos tristes e olhares desistentes da vida dentro de ônibus, calçadas, escritórios, consultórios, não tanto dentro dos colégios e lugares onde o desejo da criança é o do encontro, do gesto que vai em direção ao seus colegas, mesmo que esse gesto seja zombado, carregado de acusações, como por exemplo o de que fulano não emprestou o lápis a quem deveria. Sim, tudo é vertido para as emoções do encontro. E quanto desencontro há depois onde eles e elas crescem e se tornam pessoas carregadas de hormônios e desejam uns aos outros e não sabem o que fazer com os excessos. Alguns se controlam melhor, apenas sorriem e ao chegar em casa dormem muito ou dormem pouco e depois voltam forçadamente para algum esporte ou curso extra. E esse montante de pensamentos vai me ocorrendo depois de tantos meses ou talvez até anos que não me colocava diante de uma página em branco. Tenho sempre uma quantidade suficiente de títulos incríveis que ficam aguardando as histórias e ensaios de minha mente tão desejosa de transmitir um mínimo do que se passa nela. Nestes meses com pouquíssimo acesso a vida fora de casa, tem me sido mais corriqueira as cenas descritas em off, sejam elas do passado, dos vários passados, o remoto, o recente e o quase atual, até o futuro projetado sempre discretamente, não sei porque cargas d´água não gosto nunca de projetá-lo, há sempre em mim, um receio de tentar lidar com o desconhecido. Não digo que este ano pandêmico está sendo ruim. Por que, diria eu, algo desse tipo e não reconheceria as glórias e bênçãos em minha própria vida, começando pelo fato de estar livre do cigarro, um vício que me acompanhou por mais de trinta anos e que deliberadamente me deixava à mercê de uma fumaça tóxica a invadir meu próprio ser me aliviando de uma angústia existencial quase nobre, uma certa benevolência com o glamour universal da tristeza bem cultivada que só cola nos filmes e fotos pois na vida sentida o que faz bem custa disciplina, esforço, tempo para construir, mas a magia do “bem estar” rápido, aquecendo-se entre meus dedos, me dava um certo significado; pensava eu comigo naqueles tempos da fumaça “pelo menos estou eu aqui só, com meus pensamentos e memórias tristes, sendo personagem de mim mesma, num canto olhando para o nada e enchendo minha vida com esse pedaço de fumo entre os dedos, jogando fumaça para o alto, olha que coisa mais cinematográfica que você está fazendo, quanta beleza há neste seu drama particular, olha o quanto você se safa nesta sua cena lírica que montou para você mesma, em quantos filmes não caberia, olha esse seu personagem, como você construiu uma história e a encarnou, tornou carne, a própria dor de existir”, mais ou menos assim é o fumante, o dependente químico, a dor se apodera dele, e a existência de algo tóxico em seu corpo o pune, esfrega na sua cara um passado de carência, de alguém que não superou.
































